Tenho as mesmas facilidades e dificuldades quando escrevo, quer em português, quer em crioulo. Nenhuma dessas línguas é mais fácil nem mais difícil. A complexidade do acto de criação é a mesma nos dois casos, mas, na verdade há uma grande diferença em termos do que escrevo, de como escrevo e do porque escrevo; relativamente as duas línguas isto é, os conteúdos tendem a ser completamente diferentes nos dois casos, assim como a motivação da escrita, as razões que me levam a escrever e a forma como escrevo; o estilo de escrita. De facto, quando escrevo em português a tendência é expressar coisas que têm muito a ver com o meu interior, com os meus sentimentos e pensamentos mais profundos relativamente à vida e ao mundo; algo assim místico e filosófico, enquanto que a escrita em crioulo tende a ser mais ligada ao que me rodeia, ao quotidiano e às tradições cabo-verdianas, não obstante haver pontos em comum nos dois casos.
O que me motiva a escrever em português é um pouco a necessidade de reflexão sobre as coisas, uma certa procura de mim mesmo e da razão da existência e do existir e a dúvida, as interrogações múltiplas que me assaltam. Tanto posso provocar com os meus pensamentos e sentimentos o estado de êxtase que me levará à escrita, como isso pode acontecer naturalmente por qualquer situação ou causa pertinente, e de forma inconsciente.
A escrita em crioulo, por seu lado, é quase toda ela provocada por uma situação, por uma causa exterior que tem a ver com o que me rodeia, quer do momento presente ou de momentos mais remotos, e quase sempre ligados a preocupações de ordem antropológica e histórica e mitológica. É uma escrita que acontece já fortemente condicionada pela razão, e, quase toda ela, consciente e direccionada para um ou vários objectivos. Neste caso, a tendência para uma certa dramatização e declamação se impõem naturalmente, de forma acutilante.
Quanto à forma, à linguagem, nos dois casos a metáfora, as imagem, os ícones me perseguem e me subjugam, e não há forma de se lhes escapar, pelo que, tanto num caso como no outro a tendência para a literariedade extrema e um certo hermetismo se verificam, ainda que no caso da escrita em português seja mais pertinente e imponente Uma certa sublimidade e transcendência, também, caracterizam o meu modo de escrita nos dois casos.
Em suma, o que posso dizer é que quando escrevo em português sinto que sou mais solto, mais livre, mais fluido, mais inconsciente, mais reminiscente e mais místico, e quando escrevo em crioulo, sinto-me mais preso à terra, às minhas rochas, às minhas costelas, às minhas entranhas e sou um pouco menos inconsciente e subjectivo, tornando, inclusive, a minha escrita chã e provocante, devido à forte tendência que tenho aqui de satirizar, de desenvolver o sarcasmo, e os escarros que deverão atingir os rostos dos sacanas.