Eu defino a minha pintura, ou o meu estilo pictórico como pintura difluisionística, pois a técnica que uso para pintar, creio eu, é um pouco diferente da norma , da forma como normalmente se pinta. Os meus quadros são baseados numa diluição e ao mesmo tempo fusão de cores, o que é muito difícil de se conseguir, e, dada essa simbiose subtil e profunda de cores, que se repercute na óptica do observador, emprestei esse termo do mundo da música (que vem das palavras difluir – abstracções emocionais e fusão) para designar esse meu estilo. Entretanto, há, geralmente, uma explosão e uma reverberação de cores quentes e vivas nos meus quadros, que dão às vezes a impressão de mundos e coisas estilhaçadas e reorganizadas, dispersas e reunidas; às vezes um pouco violentas, às vezes suaves, o que me aproxima um pouco dos “fauves” e do abstraccionismo, às vezes expressionista, que é a forma mais fiel de retratar o meu interior, a minha alma, o meu eu mais profundo e inconsciente.
Eu sou um Poeta de cores. Os meus quadros são essencialmente poéticos, assim como os meus poemas são verdadeiras pinturas em forma de palavras e de versos. Eu os concebo e idealizo como artes supremas em que o subjectivismo, o êxtase, a relatividade e uma certa fugacidade eterna se manifesta.
Tanto a minha escrita como a minha pintura são para serem sentidas, antes de serem entendidas, pois são ao mesmo tempo delírio e equilíbrio em pleno voo.
Relativamente aos temas dos meus quadros, eu defino a minha pintura como pintura cósmica, que tem muito a ver com a minha intuição, na medida em que, para além do incomensurável universo da minha interioridade que expresso em pintura, há também uma grande procura da parte invisível das coisas, e do mundo, enquanto fulcro de algo mais vasto, menos preciso, mais fluído, menos perceptível, e que no, entanto, pressentimos, possui uma ordem e uma lei precisas. É assim algo onírico, mas latente, enquanto forma e não-forma, coisa e não-coisa, e aqui os sentimentos e a intuição são soberanos na determinação do processo e do caminho a percorrer nessa busca do sempre emanente e transcendentes. Há um delírio, é certo, nessa busca do infinito, desse cosmos que me habita, visto que a minha pintura é um pouco simbólica por representar esses universos vaporosos e quase intangíveis do eu quer ser retratado e conviver com os outros, daí que eu diga, também, e do todo.
É claro que, devido ao meu conhecimento, embora modesto, da pintura, tenho enveredado por outros caminhos, diferentes desta minha raiz, (povoada de luz e de brilho) experimentando outros estilos e convivendo com outras técnicas, como forma de exercício, de oxigenação higiénica e de dinamização estética e criativa; e tenho tentado pintar um pouco à moda dos pintores vanguardistas e pós-modernos.
Quanto a mim, o mais importante na pintura, e na arte em geral, é a criatividade e a estética; é o poder de ter uma certa imaginação que nos permita transcender o óbvio, o palpável, o evidente, o quotidiano imediato, e construir algo novo, diferente, único e nunca visto; é a capacidade de criar algo que enfeitice e que subjugue, através de uma linguagem sugestiva e de uma harmonia, ou desarmonia sedutora, ou do jogo de cores e de luz, ou das recriações múltiplas presentes em cada quadro.
Evidentemente que, tendo em conta que o conceito de estética varia um pouco com o tempo e com as correntes estético-estilistícos que se sucedem, é difícil estabelecer os parâmetros do que é estético ou não, para além dos pressupostos da originalidade, da técnica e da subjectividade mas quando se fala da pintura, estritamente, enquanto linguagem sígnica de cor, sem levar em conta as questões temáticas e ideológicas subjacentes (que possibilitam dimensões várias com o jogo de pensamentos), a luz tem-se sobressaindo como elemento primordial e fundamental da estética, intrínseca à pintura, ao longo do tempo.
A história da arte em geral, quer se trate de pintura ou de literatura, demonstra bem como a questão estética se reveste de uma certa subjectividade, não obstante uma certa cientificidade que existe nos princípios que determinam os limites do artístico e não-artístico, do estético e não estético, embora isso também não seja infalível, porque, como se sabe esses critérios e princípios variam muito com as épocas, com os contextos e com a própria dinâmica dos conceitos. Devido a essas variações, muitas obras, pinturas e escritores já foram considerados menores em determinada época, em que imperava uma determinada moda, enquanto que em outras épocas foram considerados maiores e protótipos do que é arte. As escolas artísticas também influenciaram muito esse tipo de apreciação, pelo que apareceram, sempre, correntes estéticas, ao longo de gerações, que não eram, por um lado, aceites pelos existentes, e, que por outro lado negavam as existentes proclamando-se como as melhores e verdadeiras. Portanto, na arte não há verdades absolutas e irrefutáveis.
Os exemplos são vários: para além das pequenas rupturas e dissensões havidas entre as várias tendências, digamos, clássicas, como o barroco, o romantismo e o realismo, encontramos ainda muitos grupos que se opõem entre si e brigam pelos seus conceitos e manifestos do que será a arte, consoante as suas visões e ideias, tão díspares umas das outras, levando a que houvesse rupturas atrás de rupturas e imposições, mais imposições - isto em termos das artes ditas de formatividade, de expressão e de redução. É o caso dos impressionistas que foram rejeitados pelo salão Francês; é o caso dos simbolistas relativamente aos impressionistas; é o caso da Arte abstracta que se libertou de toda a tradição anterior de pintura; são os casos do cubismo, do futurismo do dadaísmo e do surrealismo, entre outros.