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A literatura cabo-verdiana

Eu creio que a literatura cabo-verdiana dos últimos tempos, desde a independência nacional, sofreu uma transformação substancial.

Abrindo-se mais ainda ao mundo; impregnando-se de novos valores e novas percepções da vida e das coisas, apreendendo as novas tecnologias e os novos impulsos hodiernos, por um lado, e por outro, acompanhando o dia-a-dia mundial, através das novas tecnologias que tornam o planeta (como se usa dizer agora) uma aldeia global, e sofrendo também as consequências dos inúmeros acontecimentos planetários, tais como os conflitos vários, as escaladas das drogas, os fenómenos de aculturação vária e as ameaças terroristas, ecológicas, nuclear, e epidémicas, os escritores cabo-verdianos contemporâneo acabaram também por se ressentir desse novo clima de vida e vivência traduzindo-o nas suas escritas numa linguagem e roupagem, tanto estética como temática, diferente da escrita que lhes antecede e dos Bardos da literatura cabo-verdiana.

Houve, sim, um avatar, uma revolução e uma inovação na forma e na maneira de escrever, na percepção da nova realidade cabo-verdiana e no modo de retratá-la. E essa revolução se verifica tanto no aspecto literário em si, nas novas imagens e metáforas, como no que concerne ao conteúdo e abordagem das novas temáticas, que se primam por uma certa originalidade e criatividade, em que a subjectividade e uma certa utopia se manifestam com primor e evidência.

Neste momento, pode-se falar de uma plêiade de escritores cabo-verdianos que se enveredaram por rumos tão diferentes dos seus antecessores e que atingiram uma grande maturidade estético- literária.

O grande mérito dessa nova geração reside na sua heterogeneidade e particularidade. Pode-se afirmar que os escritores dessa nova geração primam-se pela diversidade de estilo e de abordagem temática de tal forma que se torna quase impossível uma filiação ou uma inclusão peremptória e espartilhada em escolas literárias e à volta de mentores dogmáticos.

A liberdade de escrita, do que se escreve e de como se escreve, em Cabo Verde, é tão grande, que se pode encontrar autores da mesma geração com obras tão individuais e originais, tão diversas e diversificadas, tão universais quanto telúricas, e com ressonâncias universalista múltiplas, a se conviverem num clima de criação e de publicação deveras impressionante, não obstante algumas tentativas de alguns pseudo mestres em classificar e determinar a qualidade e a importância dos seus discípulos.

Não vou citar nomes, nem obras, mas quero ressaltar aqui que nesses últimos tempos foram publicadas obras, tanto no domínio da prosa, como da poesia, e do ensaio, inclusive, com um grande nível estético, e com todas as outras qualidades, como a criatividade, a originalidade e a artisticidade que as tornam obras de referência em qualquer parte do mundo, e que valorizam o património artístico-cultural e literário cabo-verdiano.

Entretanto, queria evidenciar ainda, uma outra grande conquista dos escritores contemporâneos, que é a apreensão da importância da sua língua materna – o crioulo – no contexto da edificação de um mundo sócio-cultural e literário cabo-verdiano.

De facto, o estudo e a investigação à volta da língua crioula, e a sua divulgação, e a elaboração de uma gramática, e de normas da sua escrita, assim como a sua crescente utilização na escrita de obras literárias, constituem, sem dúvida alguma, uma grande revolução na literatura cabo-verdiana e uma conquista de primordial importância para o futuro, não só da literatura cabo-verdiana, como também do ensino em Cabo Verde. As obras literárias, em crioulo, publicadas ultimamente, e a sua recepção calorosa no seio do público cabo-verdiano falam por si.

É claro que se me torna imprescindível falar da fertilidade editorial cabo-verdiana, tanto no que concerne aos escritores, que publicam regularmente, quanto no que se refere às editoras que têm trabalhado bem e publicado muito, malgrado, o, relativamente, exíguo número de leitores em Cabo Verde, e a famigerada falta de verba. Quero ainda render aqui a minha homenagem à Claridade e a todos os escritores seus epígonos.

De facto, a Claridade foi um movimento, ou uma revista magistral que marca a nossa literatura, não só pela ruptura que provocou, relativamente aos modelos clássicos que a antecedia, mas também pelo ideário que traçou de fincar os pés no chão e reivindicar o que é nosso e que a terra nos legou, por legitimidade. Esse movimento, de raiz telúrica, vinga-se também na nossa história literária, por ter constituído uma frente forte de contestação, de protestos e de embate contra a situação social, vivida no arquipélago colonial, e contra os abusos e espezinhamentos que a nossa população sofreu nesse tempo.

Constitui também um espólio importante da nossa história, porquanto se manifesta como um espelho que retrata vários quadrantes da vida e vivência do povo cabo-verdiano.

Um dos grandes méritos e força da Claridade é o seu espírito e tom contestatário e de revolta, para além de ter sido, é claro, o arauto da modernidade em Cabo Verde, com a utilização do versilibrismo e de temáticas nacionalistas.