




A questão da oficialização do crioulo e do seu ensino é de facto delicada e, até certo ponto, problemática, mas incontestavelmente necessária.
Urge oficializar a língua crioula e integrá-la no curriculum escolar para que a nova geração a saiba ler e escrever e não a ache algo estranha e difícil. Se utilizamos o crioulo quotidianamente como meio de comunicação oral privilegiando porque não utilizá-lo também na escrita.
Neste momento, há uma certa resistência, em utilizar quanto ao crioulo como língua oficial o que é normal, porque as pessoas não o estudaram e não o aprenderam, mas é preciso ver que é necessário ensiná-lo e estudá-lo para o podermos utilizá-lo, assim como acontece com as outras línguas. Não há problema algum em termos o crioulo como língua oficial ao lado do português. Há exemplos vários de países que têm duas ou mais línguas oficiais.
Há o flamengo e o francês na Bélgica que aparecem sempre um ao lado do outro, em anúncios, em legendas de televisão e em jornais como opção, etc., etc.. Há o exemplo do Luxemburguês que aparece também ao lado do francês e do alemão, e há diversos outros exemplos. A questão do número de falantes do crioulo, também, não é relevante, pois temos exemplos de várias línguas que não são faladas por uma grande quantidade de pessoas, mas que se impõem e que batalham para o seu desenvolvimento e dignidade no mundo. Temos o mirandês, o malaio, basco, o galego, o bretão etc.
Portanto, é preciso começar a ensinar o crioulo neste momento. As bases já estão criadas para isso. Já há um trabalho sério e de mérito do linguista Manuel Veiga, com uma gramática bem estruturada e elaborada; Já temos dicionários bilingues e só nos falta um dicionário etimológico de sinónimos para se garantir o êxito total da sua implementação como língua oficial.
O único problema, de momento, tem a ver com as variantes, e a resistência no estudo da melhor forma de a ultrapassar; mas, se repararmos bem na gramática de Manuel Veiga, veremos que as principais variantes faladas em Cabo Verde estão polarizadas pela variante da ilha de Santiago e Sotavento, e pelas da ilha de São Vicente e do barlavento. Há que de facto definir a escrita, o que já está feito, e que é uma escrita comum, que pode servir a todos, não obstante as diferenças fonéticas e fonológicas de cada variante, e programar uma forma de ensino que abranja essas variantes de forma a permitir uma compreensão plena das duas, o que garantirá uma compreensão e utilização mútua sem problemas. Agora, as regras têm de ser bem estudadas e definidas de maneira a não constituir problemas no seu desempenho. Todas as línguas possuem variantes dialectais e diferenças várias na sua estrutura de superfície e no seu desempenho quotidiano que tem a ver com as diferenças geográficas e culturais relativas aos seus utentes.
Mas, entretanto, se se optar por uma variante apenas como veículo principal da escrita, e, portanto, como língua oficial, eu creio que a variante da ilha de Santiago poderá ser a mais apropriada por diversas razões, de entre as quais destaco a linguística: é a variante que possui um melhor desempenho fonético e fonológico e cuja estrutura gramatical se encontra bem sistematizada.
É também a variante mãe das outras por ser a primeira a se formar antes de se espalhar aos outros espaços cabo-verdianos e sofrer as alterações que se verificam nas outras variantes, e é ainda a mais rica em termos lexicais e metafórico, para além do seu substrato cultural e histórico que a caracterizam. Por ouro lado, é a variante mais próxima da matriz que a originou, e portanto mais fácil de se identificar o seu valor etimológico, e a menos contagiada por outras línguas estrangeiras que têm transformado substancialmente as outras variantes. Há diversos estudiosos e linguistas que têm afirmado alguns desses pressupostos, nomeadamente Baltazar Lopes, e Gabriel Mariano.
Há ainda mais uma razão de peso e que merece ser ponderada. Neste momento, há uma maior publicação de obras na variante da ilha de Santiago, de entre as quais se destacam as recolhas das tradições orais de Tomé Varela da Silva, que demonstram bem o quão rico é essa variante em termos linguísticos e literários, e há vários escritores escrevendo contos e poemas nessa variante, demonstrando assim a sua maturidade linguística e literária. Para além, é claro, dos excelentes trabalhos de Manuel Veiga, enquanto linguista. E todas essas publicações poderão contribuir enormemente ao curriculum escolar do ensino do crioulo ou da língua cabo-verdiana.
Eu creio que já está na hora de se nomear uma comissão para a criação das condições e bases necessárias para a viabilização do ensino do cabo-verdiano. Não é por acaso que linguistas de várias latitudes têm estudado e publicado trabalhos sobre essa língua.