




Em Cabo Verde, praticamente, todas as pessoas são críticos; todos criticam tudo, a torto e a direito, e, em geral negativamente. Quase toda a gente emite juízo de valor sobre este ou aquele, sobre isto e aquilo, às vezes de forma peremptória, tal uma autoridade na matéria em questão. Sendo que na maioria das vezes tais críticos estão a leste do que criticam, bem longe mesmo, ou por não estarem informadas sobre o assunto, ou por não terem gabarito nem nível para tal, parece-me que tais críticas constituem uma forma de compensação, de sublimação. Não é raro encontrar pessoas fazendo críticas sem o mínimo de fundamento, sem nenhum argumento, e, em geral, de forma negativa; inclusive pessoas avisadas e pseudo críticos de Jornais exercem, amiúde, esse direito de forma gratuita, dizendo por dizer, afirmando coisas sem argumentos, daí que é preciso uma análise séria sobre essa questão, e urge criar mecanismos e condições para suscitar a crítica séria e abalizada nos nossos órgãos de informação, de forma a possibilitar ao público uma visão clarividente e idónea das coisas, ajudando assim também a veicular os princípios e o caminho que se deve seguir para se fazer uma crítica de facto. Urge um exercício permanente da crítica que possibilite aos outros uma aprendizagem, e o seu consequente exercício, de forma concreta. Infelizmente, os nossos Jornais possuem um excedente de colunistas cuja preocupação principal é falar de futilidades e banalidades quotidianas. Apesar de serem necessárias, devia também haver verba para pagar críticos. vários, de diversas áreas, para publicarem trabalhos constantemente nos Jornais que esclareceriam muito determinadas coisas.
Interessando-me falar aqui da crítica literária, o que poderei dizer é que ela é praticamente inexistentes, salvo algumas excepções. Entretanto, os críticos populares da literatura abundam por aí, debitando os seus pareceres com ares doutorais, mas infelizmente sem se atinarem com argumentos, nem nada que pareça. Alguns dizem o que ouviram outros dizer; outros fazem determinadas afirmações por ignorância e outros por excesso de sapiência em áreas desencontradas.
Há tantas medidas quantas pessoas existem para medi-las, já teria dito o filósofo, e isso é tanto mais verdade se considerarmos determinadas coisas que são subjectivas, como por exemplo a arte. Mas é verdade também que determinadas coisas possuem determinados parâmetros que as definem e as caracterizam, pelo que deverão ser analisadas em função desses parâmetros, e, desde logo, à luz de uma certa objectividade e de certos princípios orientadores e restringidoras, quiça uma certa cientificidade. Assim sendo, só serão medidas, não por todos que as queiram medi-las, mas apenas por aqueles que estão a par destes parâmetros e que possuem as chaves dos códigos sobre as quais se erigem, e, portanto, só poderão ser medidas efectivamente, e com eficácia, por aqueles que aprenderam e que sabem medi-las. Daí a urgência em promover e estimular a crítica entre nós, criando espaços e verbas para o seu exercício, pois só assim os medidores crescerão e os objectos a serem medidos evoluirão, e as arrogâncias egocêntricas e descabidas diminuirão.
Sendo a crítica algo sério e exigente que leva tempo e muita consulta, e requer inteligência e perspicácia, pode-se até compreender a crítica de muitos que não se preocupam em aprofundar e corroborar os seus pontos de vista e análises, tornando-se muitas vezes bombásticos e exteriotipados, cheios de chavões e clichés, e muito parciais, consoante os seus interesses. Para se evitar isso é que se requer críticas bem remuneradas e dignificadas.
Por enquanto, apenas alguns cabo-verdianos e alguns estrangeiros têm exercido a crítica de forma imparcial, isenta, sem amiguismos, nem lobbys tendenciosos. Mas há um caminho longo ainda a percorrermos até nos aproximarmos desse luar que se nos afigura imprescindível atingir.