




Já fiz um pouco mais de cinco programas televisivos, todos de carácter cultural e essencialmente diferentes uns dos outros, apesar de haver, evidentemente, muitos pontos em comum e convergentes.
Um dos primeiros programas para a televisão que eu fiz, foi Artes & Letras, que foi o primeiro programa da televisão cabo-verdiana totalmente voltado para os vários géneros artísticos ao mesmo tempo; é um dos raros do seu género que teve uma certa autonomia em termos criativos, tendo explorado o rico filão da poesia e da literatura, com leituras poéticas e clipes de poemas e alguma dramatização. Apostando um pouco na diversificação de temas e de abordagem, esse programa abarcou várias modalidades artísticas e diversas formas de realização – desde as artes plásticas à literatura e à música, com entrevistas, documentários e reportagens. Foi um programa que teve uma boa aceitação e que impulsionou e motivou os restantes que fiz? que se lhe seguiram.
Um outro programa televisivo que fiz e que teve um grande impacto foi Cultura Versus Cultura que apostou essencialmente em grandes entrevistas, também a uma diversificada modalidade artística, tendo constituído como que um meio dos artistas em geral (escritores, músicos, pintores, escultores, dançarinos, etc.) divulgarem os seus projectos e veicularem as suas ideias sobre as coisas, e a realidade que os cerca, e sobre os seus sentimentos.
Foi um programa que tinha como objectivo fundamental criar um espaço de diálogo e de comunicação entre os artistas, permitindo-lhes expressar as suas visões mais profundas do mundo e do seu meio de informação e formação. Artistas de renome, tanto residentes em Cabo Verde como na diáspora, contribuíram com a sua presença e a sua experiência no enriquecimento desse programa.
Foi um programa que teve também a preocupação de investigar e divulgar o rico manancial do património cultural cabo-verdiano – das tradições e manifestações culturais e folclóricas cabo-verdiana; aliás, nessa linha seguiu o programa Nôs Identidade que teve a felicidade de levar ao público em geral o filão do saber e da cultura verdadeiramente popular, e do meio rural, tais como as festas de romaria, as músicas tradicionais e regionais, as crenças populares, etc.
E, enquanto isso, no outro prato da balança havia o programa Clari(e)vidências que teve como objectivo primordial informar e divulgar os principais eventos artístico-culturais, dando aos artistas a possibilidade de se expressarem de forma mais livre, mais espontânea e aprofundada sobre os seus trabalhos e as suas ideias. Baseava-se essencialmente em reportagens e entrevistas, mas não descurava também alguns momentos de música e poesia, às vezes com clipes.
Teve também um grande impacto e muita aceitação o programa Testemunhos do Tempo que procurava estabelecer uma ponte entre o passado e o presente, trazendo ao momento presente factos, situações, coisas, vivências e glórias do passado, como forma de preservar a memória do passado e de contribuir um pouco na tarefa de levar à geração actual o conhecimento do percurso do nosso país, da nossa cultura, da nossa história e sociedade.
Foi um programa concebido por outrem, que acabei assumindo, e que contava com diversas personalidades idóneas e conhecidas da sociedade cabo-verdiana.
É de se dizer que todos esses programas que eu fiz seguiram uma linha editorial própria totalmente da minha autoria e segundo os meus critérios e sensibilidade.
Tendo em conta os problemas vários que enfrentei na sua execução, tais como a falta de verba, a precariedade de estúdios de montagem, de câmara e de pessoal (montadores, realizadores, investigadores, anotadores, produtores, etc., etc.) acabei por assumir praticamente a totalidade dessas tarefas produzindo parte do programa com o meu próprio esforço, quer utilizando o meu telefone, quer deslocado em táxis, às minhas custas, para os diversos contactos e para as reconfirmações; quer editando e realizando os programas juntamente com um Câmara-man e um montador, apenas.
É claro que me sinto gratificado com o resultado obtido e com as inúmeras manifestações de reconhecimento por parte do público em geral. Creio ainda que esses programas atingiram o seu objectivo e conseguiram atingir o nível de importância e de serventia sócio-cultural a que se destinavam.
Quanto à Comunicação social em Cabo Verde, eu acho que tem a mesma dimensão e desenvolvimento do país. É a imagem do país. Se se diz que o país não pode ser comparado com outros países porque é pobre e não possui recursos, a mesma coisa se pode dizer da comunicação social. Entretanto, eu acho que para um país tão pequeno e com um reduzido número de leitores, Cabo Verde possui uma média, satisfatória, de jornais com razoável qualidade. Ao nível da rádio também está bem servido e o único problema maior que possui é ao nível da televisão. Mas, quanto a isso, é preciso dizer que o seu maior problema é a falta de verba. Não se pode fazer televisão sem dinheiro. A televisão é muito cara, é dispendiosa e é preciso investir seriamente para se poder ter bons resultados. Entretanto, eu acho que poderia estar melhor, e que tão só necessita de alguns acertos em termos de organização, de orientação e de um objectivo definido de programação. Creio que há demasiados directores na televisão, quando poderia ter apenas um e alguns chefes, o que reduziria bastante as despesas com a chefia e possibilitaria uma maior margem de verba para o seu funcionamento, de facto. A disciplina, a programação dos trabalhos com objectivos claros e definidos, aliados à exigência de eficiência e competência, quiçá com uma certa emulação, são imprescindíveis para o seu bom funcionamento, e, é claro, uma linha editorial e uma programação criativa garantiria o sucesso. Com isso quero dizer: criar programas nacionais com dinamismo e criatividade e de forma orientada e programada, que sejam de facto programáticos. Mas tudo isso só será possível com muito dinheiro e não se pode fazer comparações com outras televisões que possuem o triplo de materiais, de pessoal e de verba (senão mais), e que, no entanto, em termos de programas que oferecem não ultrapassam muito a televisão cabo-verdiana. Se não vejamos: estão abertos de manhã à noite, mas com a repetição dos mesmos programas emitidos durante um tempo determinado e que não ultrapassa muito o tempo de emissão da televisão cabo-verdiana. Se esta fizesse o mesmo, com mais alguns programas, poderia também estar aberto durante 24 horas. Agora, é preciso, sim, apostar muito na formação, no espírito de equipa e na responsabilização da produção. É preciso criar o gosto de querer trabalhar, de querer inovar, de querer trabalhar e de querer avançar, em todo o pessoal que trabalha na televisão, e isso só será possível com o devido estímulo, com a dedicação e seriedade daqueles que a dirigem, mas, também, com profissionais conhecedores do métier e com a gratificação devida pelos trabalhos feitos.
É preciso também que a televisão cabo-verdiana tenha programas de fundo, com grandes entrevistas, que satisfaça o público, que não se interessa pelo futebol, pelas telenovelas, pelos filmes e pelos programas de diversão, e acabar com essa mania de se querer oferecer apenas o que o grande público quer, pensando erradamente que o público que se interessa pelos grandes temas de conversa é uma minoria, quando na verdade, é bastante significativo. A Televisão tem de tentar oferecer programas que satisfaçam todos os círculos de interesse, independentemente da audiência, privilegiando a qualidade, e a perspectiva pedagógica e formativa, independentemente da audiência. Tanto é que a nossa Televisão não se rege pela lei do marketing e da concorrência.
É preciso oferecer o que é bom, ainda que pensemos que não há apetências e inclinações para o seu desfrute, pois, assim, quem não quiser ver não verá, mas a oferta está lá e a Televisão não poderá ser acusada de negligenciar a qualidade e de não ser uma Televisão para todos os gostos.
E temos de criar programas ao nosso estilo, o mais original possível, sem imitar programas dos outros, de outros países, nem tê-los como paradigma do que é bom, do como deverá ser. O que é bom é o que nós criamos, e, o que deverá ser é o que nós quisermos, não o que os outros determinam. Devemos procurar ser inventivos e cativar as pessoas, não pela diversão mas pelo conteúdo, pela forma e pela genialidade (se isso for possível).
Muitas vezes não avançamos muito porque estamos preocupados em copiar e seguir os outros e esquecemo-nos que podemos criar coisas fabulosas que poderão passar a ser modelos para os outros, e ter coisas nossas, próprias, genuínas e à nossa maneira, com qualidade e performance.